quarta-feira, 2 de junho de 2010

Era uma vez... (parte 3) Trilogia!


Viu fumaça e chegou a uma casinha coberta de fuligem, numa garganta escura, cercada de precípicios. Bateu.
- Quem está batendo? - perguntou uma voz de velha.
- Um pobre cristão que busca asilo.
A porta da casinha se abriu e uma velha decrépita disse:
- Ó pobre moço! Que tentação o assaltou para vir se perder aqui em cima?
- Avózinha - disse Leombruno -, ando à procura de minha mulher, a fada Aquilina, e não terei paz enquanto não a encontrar.
- E agora como vamos fazer, quando voltarem meus filhos? Hão de querer comê-lo.
- Por que comer? Quem são seus filhos?
- Não sabe? Esta é a casa dos Ventos e eu sou Vória, mãe dos Ventos, e dentro em pouco meus filhos estarão de volta.
Vória escondeu Leombruno numa arca. Ouviu-se um rumor distante como de árvores se inclinando e ramos se quebrando, e um uivo entre os despenhadeiros da montanha. Eram os Ventos que regressavam. O primeiro foi o do norte, gelado e com fragmentos de gelo pendendo-lhe das roupas; a seguir, Mistal, Gregal e do Sudeste; e já estava à mesa quando chegou o último filho de Vória, Siroco, aquele que sempre se fazia esperar, assim que entrava, aquecia a casa.
Todos eles, ao entrarem, a primeira coisa que disseram à mãe foi:
- Oh, que cheiro de carne humana! Há algum cristão em casa.
E Vória:
- Estão sonhando, que cristão chegaria a estas paragens de cabritos monteses?
Contudo, de vez em quando, os Ventos continuavam a dar umas cheiradas e a falar de carne de cristãos. Então Vória colocou uma polenta fumegante na mesa e todos os filhos se puseram a comer avidamente. Quando estavam fartos, Vória disse:
- Eram a fome que os fazia sentir cheiro de cristãos né?
- Agora que estamos fartos - disse Mistral -, mesmo que tivéssemos um cristão ao alcance das mãos, não lhe faríamos nada.
- É sério que não lhe fariam nada?
- É sério. Com certeza nem tocaríamos nele.
- Então, se juram por São Jorge que não lhe farão nada, mostro-lhes um cristão em carne e osso.
- O que está dizendo Mamãe? Um homem em cima? Como é possível? Sim, juramos por São Jorge que não lhe faremos nenhum mal, se é que nos mostrará mesmo o homem.
Assim, entre os sopros fortes dos Ventos, que quase não o deixavam parar em pé, surgiu Leombruno e, crivado de perguntas, contou a sua história.
Quando souberam da busca da fada Aquilina, cada um refletiu para ver se sabia de algo e, um por um, disseram que em suas andanças pelo mundo jamais a tinha encontrado. Só Siroco, permanecera calado.
- E você, Siroco, não sabe de nada? - disse Vória.
- Claro que sei - disse Siroco. - Não sou distraído como meus irmãos, que não sabem encontrar nada. A fada Aquilina está doente de paixão. Chora sempre, diz que seu marido a traiu e está morrendo de dor. E eu, provocador como sou, divirto-me fazendo barulho ao redor de seu palácio, escancarando janelas e balcões, e lhe jogando ar até mesmo entre os lençóis.
- Ó meu Siroco! Você tem que me ajudar! - disse Leombruno. - Deve me ensinar o caminho para chegar a este palácio. Sou o marido da fada Aquilina e não é verdade que seja um traidor. Também eu morrerei de dor se a não encontrar.
Não se como fazer - disse Siroco - pois é um caminho muito complicado para que se possa ensiná-lo. Teria que vir comigo, mas ando tão rápido que ninguém pode me acompanhar. Seria preciso levá-lo no colo, mas como faço? Sou feito de ar e você escorregaria de mim.
- Não se preocupe - disse Leombruno, você segue o seu caminho e eu não ficarei pra trás.
- Ah! você não sabe como corro! Se quiser experimentar.... Partiremos amanhã de madrugada.
Ao amanhecer, Leombruno, com a bolsa, as botas e a capa, parte com Siroco. Às vezes, Siroco se virava para trás e chamava:
- Leombruno! Oh, Leombruno!
E ele:
- Oh, o que quer? - Já estava na frente.
E Siroco ficava sempre mal.
- Aqui estamos - disse o Siroco num certo ponto. - Aquele é o balcão de sua amada.
E com um sopro Siroco o escancarou: Leombruno foi rápido ao saltar para dentro, envolvido em sua capa.
A fada Aquilina estava de cama, e uma de suas criadas lhe dizia:
- Minha patroa, como se sente? Está um pouco melhor?
- Melhor? Esse vento maldito recomeça a soprar. Estou meio morta.
- Não quer tomar alguma coisa? Um pouco de café, de chocolate, uma tigela de caldo?
- Nada, não quero nada.
Mas a criada tanto fez que a convenceu a tomar um pouco de café. Levou a a xícara e a deixou perto da cama. Leombruno, invisível, pegou a xícara e bebeu o café. A criada, pensando que a fada tivesse bebido logo o café, levou também o chocolate, e Leombruno bebeu também ele. A criada voltou com uma tigela de caldo e algumas coxinhas fritas:
- Senhora patroa, já que tomou o café e o chocolate, é sinal de que lhe voltou um pouco do apetite, Prove esse caldo e estas coxinhas fritas, assim recuperará as forças.
- Mas que café? Que chocolate? - disse a fada. Não tomei nada.
As empregadas se entreolharam como se disessem: "Está perdendo o juízo".
Mas, assim que ficaram sozinhos, Leombruno, retirou a capa:
- Minha mulher, reconhece-me?
A fada se atirou no pescoço dele e o perdoou. Fizeram juras de amor, lamentaram o sofrimento por terem ficado tão distantes, E deram um grande banquete no palácio, e todos os Ventos foram convidados para redemoinhar em sinal de alegria.

Não é muito legal???

~Fim~

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