quarta-feira, 2 de junho de 2010

Era uma vez... (parte 2)


Enquanto cavalgava para regressar ao castelo da fada Aquilina, passou por uma cidade onde anunciava um torneio. Quem vencesse o torneio durante três dias seguidos receberia a mão da filha do rei. Leombruno, que tinha vontade de se exibir um pouco com o rubi encantado que trazia no dedo, apresentou-se no torneio do primeiro dia, venceu a todos e fugiu sem dizer seu nome. No segundo dia, apresentou-se de novo, saiu vencedor, mais uma vez e mais uma vez desapareceu. No terceiro dia, o rei mandara reforçar a guarda ao redor do local do torneio, e o vencedor foi detido e conduzido perante a tribuna real.
- Cavaleiro desconhecido - disse o reio -, apresentou-se no torneio e o venceu. Por que agora não quer se identificar?
- Perdão, Majestade, não ousava vir à sua presença.
- Venceu, cavaleiro, e agora deve casar com minha filha.
- Majestade, lamento, mas não posso!
- E por que não?
- Majestade, sua ilha é uma jovem belíssima, porém já tenho uma esposa que é mil vezes mais linda que sua filha.
Diante de tais palavras, um murmúrio percorreu a corte; a princesa ficou com o rosto vermelho como brasas, e os nobres se puseram a sussurrar entre eles sem cessar. O rei, grave, impossível, disse:
- Cavaleiro, para que possamos admitir sua glória, é preciso que ao menos nos mostre sua consorte.
- Sim, sim - fizeram coro os fidalgos -, também queremos ver tal beleza. L
Leombruno se dirigiu ao rubi:
- Rubi, meu rubi, faça comparecer aqui a fada Aquilina
Porém, o rubi tinha poderes sobre todas as coisas, menos sobre a fada Aquilina, de quem provinha sua virtude mágica. E a fada, cheia de desdém, pois Leombruno se gabara dela, respondeu à chamada do rubi mandando a última de suas empregadas.
Contudo, mesmo a última das empregadas da fada Aquilina era tão bela e ricamente vestida que o rei e toda a corte ficaram de boca aberta.
- Cavaleiro, certamente é bela a sua esposa! disseram.
- Mas esta não é minha mulher! - disse o rei.
E Leombruno repetiu ao rubi:
- Meu rubi, desejo que a fada Aquilina compareça diante de todos aqui.
Dessa vez a fada Aquilina mandou sua primeira criada.
- Ah, esta sim é uma beleza! - disseram todos -, seguramente é sua esposa!
- Não - dsse Leombruno. - É apenas a sua primeira criada.
- Acabemos com isso! - disse o rei. - Ordeno-lhe que faça aparecer a sua verdadeira esposa.
Leombruno acabara de se dirigir ao rubi outra vez, quando, numa espécia de esplendor do sol, surgiu a fada Aquilina. Os fidalgos da corte ficaram deslumbrados, rijos como estátuas, o rei inclinou a cabeça, e a princesa rompeu em soluçõs e desapareceu. Mas a fada Aqulina se aproximou de Leombruno e, fazendo menção de pegar na sua mão, arrancou-lhe o rubi, exclamando:
- Traidor! Você me perdeu e só me reencontrará se gastar sete pares de sapatos de ferro. - E sumiu.
O rei ergueu o indicador contra Leombruno:
- Compreendi: você venceu graças às virtudes do rubi, e não por seu próprio mérito. Servos, dêem-lhe uma sova!
E o cavaleiro foi expulso, espancado e deixado na rua, ferido, com as roupas rasgadas e sem montaria.
Assim que teve forças para se reerguer, dirigiu-se tristemente rumo à porta da cidade e, ouvindo um forte rumor de martelos, percebeu estar próximo à oficina de um ferreiro, onde entrou.
- Mestre - disse -, preciso de sete pares de sapatos de ferro.
- O que fez, um pacto com o Pai Eterno, para viver centenas de anos até gastar todos esses sapatos? Mas, por mim, posso lhe fazer até dez, ou quantos quiser.
- O que lhe importa se vou gastá-los? Basta que lhe pague, não? Faça os sapatos e silêncio.
Assim que recebeu os sapatos, pagou-os, calçou um par, pôs três no bolso da frente, três no de trás e partiu. A noite o surpreendeu caminhando em meio a um bosque. Ouviu vozes discutindo; eram três ladrões que brigavam para dividir um butim.
- Ei, você, bom homem! Venha ser nosso juiz. Dirigimo-nos a você para saber o que toca a cada um.
- O que precisam dividir?
- Uma bolsa que, todas as vezes que é aberta, deita fora cem reais. Um par de botas que, ao ser calçado, corre uma milha além vento. E uma capa que torna invísivel quem a usa.
- Antes, deixe-me experimentar, se tenho que julgar. A bolsa: sim, é como vocês dizem. As botas: bem cômodas, isso são. E a capa, esperem-me abotoar aqui. Vêem-me?
- Sim.
- E agora, vêem-me?
- Sim, ainda.
- E agora?
- Não, agora não o vemos.
- E não me verão mais - disse Leombruno e, tornado invísivel pela capa, correndo mais que o vento com as botas mágicas e carregando a bolsa dos cem reais, percorria vales e selvas.
To be continued....

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