sexta-feira, 4 de junho de 2010

Os três orfãos.

Um homem com três filhos morreu de doença. Os três filhos se tornaram três orfãos. Certo dia o mais velho disse:
- Irmãos, estou de partida. Vou em busca de fortuna.
Chegou a uma cidade e começou a gritar pelas ruas.
Quem me quer como empregado
Considere-me contratado!
Um grande senhor se debruçou num balcão.
- Se fizemos um acordo, contrato-o como empregado.
- Sim, dê-me o que quiser.
- Mas eu quero obediência.
- Eu eu vou obedecê-lo em tudo.
De manhã, chamou-o e lhe disse:
-Tome, pegue esta carta, monte nesta cavalo e parta. Mas em nenhum momento toque nas rédeas, pois, se tocar nelas, o cavalo retorna. Basta deixá-lo correr, porque ele sabe conduzi-lo até onde a carta deve ser entregue.
Montou no cavalo e partiu. Galopa que galopa, chegou à beira do despinhadeiro. "Vou cair", pensou o orfão, e puxou as rédeas. O cavalo se virou e regressou ao palácio num piscar de olhos.
O patrão, vendo-o regressar, disse:
- Viu? Não foi aonde eu tinha mandado! Está despedido. Vá até aquele monte de dinheiro, pegue o que quiser e desapareça.
O orfão encheu os bolsos e foi embora. Assim que saiu, rumou direto para o Inferno.
Vendo que o irmão mais velho não retornava, o segundo dos orfãos decidiu partir também. Percorreu o mesmo caminho, chegou à mesma cidade e também ele começou a gritar:
Quem me quer como empregado
Considere-me contratado!
Aquele senhor se debruçou na janela e o chamou. Puseram-se de acordo e, pela manhça, deu-lhe as mesmas instruções que ao irmão e o mandou com a carta. Também ele, assim que chegou à beira do despenhadeiro, puxou as rédeas e o cavalo retornou.
-Agora - disse o patrão -, pegue quando dinheiro quiser e suma!
Ele encheu os bolsos e partiu. Partiu e foi direto para o Inferno.
Vendo que nem um nem outro irmão voltavam, o irmão caçula partiu também. Percorreu o mesmo caminho, chegou à mesma cidade, gritou "quem me quer como empregado considere-me contratado", aquele senhor se debruçou na janela, mandou-o subir e lhe disse:
- Dou-lhe dinheiro, de comer e o que quiser, desde que me obedeça.
O orfão aceitou e de manhã o patrão lhe deu a carta com todas as instruções. Tendo chegado à beira daquele despenhadeiro, o moço olhou pra baixo, arrepiado, mas pensou: "Que Deus me proteja", fechou os olho e, quando os abriu, já estava do outro lado.
Galopa que galopa, chegou a um rio largo como um mar. Ele pensou: "Vou me afogar, o que posso fazer? De resto, estou nas mãos de Deus!". Nisso, a água se dividiu e ele atravessou o rio.
Galopa que galopa, viu uma enxurrada vermelha como sangue. Pensou: "É agora que me afogo. De resto que Deus me proteja!", e se lançou para a frente. Diante do cavalo, a água se dividia.
Galopa que galopa, viu um bosque, tão denso que por ele não passava nem sequer um passarinho. "Aqui me perco", pensou o orfão. "De resto, se eu me perco, perde-se também o cavalo. Que Deus me proteja!", e seguiu adiante.
No bosque, encontrou um velho que cortava uma árvore com um talo de uma veia.
- Mas o que está fazendo? - perguntou-lhe. - Pretende cortar uma árvore com um talo de uma aveia?
E ele:
-Diga-lhe mais uma palavra que eu lhe corto também a cabeça.
O orfão fugiu a galope.
Galopa que galopa, viu um arco de fogo com dois leões, um de cada lado. "Agora, se passar pelo meio me queimo; mas, se eu me queimar, queima-se também o cavalo. Adiante, que Deus nos proteja!".
Galopa que galopa, viu uma mulher ajoelhada numa pedra rezando. Lá chegando, o cavalo parou de repente. O orfão entendeu que era aquela mulher que devia entregar a carta, e a entregou a ela. A mulher abriu a carta, leu, depois pegou num punhado de areia e a jogou para o alto. O orfão montou de novo no cavalo e tomou o caminho de volta.
Quando chegou à casa do patrão, este, que era o Senhor, disse-lhe:
- Saiba que o despenhadeiro era o barranco do Inferno; a água as lágrimas de minha mãe; o sangue, os de minha cinco chagas; o bosque, os espinhos de minha coroa; o homem que cortava a árvore com o talo de aveia era a Morte; o arco de fogo, o Inferno; os dois leões eram seus irmãos, e a mulher ajoelhada, minha mãe. Você me obedeceu: pegue quantas moedas de ouro quiser.
O orfão não queria nada, mas acabou pegando uma única moeda e se despediu do Senhor.
No dia seguinte, quando foi fazer compras, pagava e a moeda permanecia em seu bolso. Assim, viveu feliz e contente.

Fábulas Italianas - Ítalo Calvino.

Bom dia imperativo pessoal pra todos vocês.

Fefa Românova.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Era uma vez... (parte 3) Trilogia!


Viu fumaça e chegou a uma casinha coberta de fuligem, numa garganta escura, cercada de precípicios. Bateu.
- Quem está batendo? - perguntou uma voz de velha.
- Um pobre cristão que busca asilo.
A porta da casinha se abriu e uma velha decrépita disse:
- Ó pobre moço! Que tentação o assaltou para vir se perder aqui em cima?
- Avózinha - disse Leombruno -, ando à procura de minha mulher, a fada Aquilina, e não terei paz enquanto não a encontrar.
- E agora como vamos fazer, quando voltarem meus filhos? Hão de querer comê-lo.
- Por que comer? Quem são seus filhos?
- Não sabe? Esta é a casa dos Ventos e eu sou Vória, mãe dos Ventos, e dentro em pouco meus filhos estarão de volta.
Vória escondeu Leombruno numa arca. Ouviu-se um rumor distante como de árvores se inclinando e ramos se quebrando, e um uivo entre os despenhadeiros da montanha. Eram os Ventos que regressavam. O primeiro foi o do norte, gelado e com fragmentos de gelo pendendo-lhe das roupas; a seguir, Mistal, Gregal e do Sudeste; e já estava à mesa quando chegou o último filho de Vória, Siroco, aquele que sempre se fazia esperar, assim que entrava, aquecia a casa.
Todos eles, ao entrarem, a primeira coisa que disseram à mãe foi:
- Oh, que cheiro de carne humana! Há algum cristão em casa.
E Vória:
- Estão sonhando, que cristão chegaria a estas paragens de cabritos monteses?
Contudo, de vez em quando, os Ventos continuavam a dar umas cheiradas e a falar de carne de cristãos. Então Vória colocou uma polenta fumegante na mesa e todos os filhos se puseram a comer avidamente. Quando estavam fartos, Vória disse:
- Eram a fome que os fazia sentir cheiro de cristãos né?
- Agora que estamos fartos - disse Mistral -, mesmo que tivéssemos um cristão ao alcance das mãos, não lhe faríamos nada.
- É sério que não lhe fariam nada?
- É sério. Com certeza nem tocaríamos nele.
- Então, se juram por São Jorge que não lhe farão nada, mostro-lhes um cristão em carne e osso.
- O que está dizendo Mamãe? Um homem em cima? Como é possível? Sim, juramos por São Jorge que não lhe faremos nenhum mal, se é que nos mostrará mesmo o homem.
Assim, entre os sopros fortes dos Ventos, que quase não o deixavam parar em pé, surgiu Leombruno e, crivado de perguntas, contou a sua história.
Quando souberam da busca da fada Aquilina, cada um refletiu para ver se sabia de algo e, um por um, disseram que em suas andanças pelo mundo jamais a tinha encontrado. Só Siroco, permanecera calado.
- E você, Siroco, não sabe de nada? - disse Vória.
- Claro que sei - disse Siroco. - Não sou distraído como meus irmãos, que não sabem encontrar nada. A fada Aquilina está doente de paixão. Chora sempre, diz que seu marido a traiu e está morrendo de dor. E eu, provocador como sou, divirto-me fazendo barulho ao redor de seu palácio, escancarando janelas e balcões, e lhe jogando ar até mesmo entre os lençóis.
- Ó meu Siroco! Você tem que me ajudar! - disse Leombruno. - Deve me ensinar o caminho para chegar a este palácio. Sou o marido da fada Aquilina e não é verdade que seja um traidor. Também eu morrerei de dor se a não encontrar.
Não se como fazer - disse Siroco - pois é um caminho muito complicado para que se possa ensiná-lo. Teria que vir comigo, mas ando tão rápido que ninguém pode me acompanhar. Seria preciso levá-lo no colo, mas como faço? Sou feito de ar e você escorregaria de mim.
- Não se preocupe - disse Leombruno, você segue o seu caminho e eu não ficarei pra trás.
- Ah! você não sabe como corro! Se quiser experimentar.... Partiremos amanhã de madrugada.
Ao amanhecer, Leombruno, com a bolsa, as botas e a capa, parte com Siroco. Às vezes, Siroco se virava para trás e chamava:
- Leombruno! Oh, Leombruno!
E ele:
- Oh, o que quer? - Já estava na frente.
E Siroco ficava sempre mal.
- Aqui estamos - disse o Siroco num certo ponto. - Aquele é o balcão de sua amada.
E com um sopro Siroco o escancarou: Leombruno foi rápido ao saltar para dentro, envolvido em sua capa.
A fada Aquilina estava de cama, e uma de suas criadas lhe dizia:
- Minha patroa, como se sente? Está um pouco melhor?
- Melhor? Esse vento maldito recomeça a soprar. Estou meio morta.
- Não quer tomar alguma coisa? Um pouco de café, de chocolate, uma tigela de caldo?
- Nada, não quero nada.
Mas a criada tanto fez que a convenceu a tomar um pouco de café. Levou a a xícara e a deixou perto da cama. Leombruno, invisível, pegou a xícara e bebeu o café. A criada, pensando que a fada tivesse bebido logo o café, levou também o chocolate, e Leombruno bebeu também ele. A criada voltou com uma tigela de caldo e algumas coxinhas fritas:
- Senhora patroa, já que tomou o café e o chocolate, é sinal de que lhe voltou um pouco do apetite, Prove esse caldo e estas coxinhas fritas, assim recuperará as forças.
- Mas que café? Que chocolate? - disse a fada. Não tomei nada.
As empregadas se entreolharam como se disessem: "Está perdendo o juízo".
Mas, assim que ficaram sozinhos, Leombruno, retirou a capa:
- Minha mulher, reconhece-me?
A fada se atirou no pescoço dele e o perdoou. Fizeram juras de amor, lamentaram o sofrimento por terem ficado tão distantes, E deram um grande banquete no palácio, e todos os Ventos foram convidados para redemoinhar em sinal de alegria.

Não é muito legal???

~Fim~

Era uma vez... (parte 2)


Enquanto cavalgava para regressar ao castelo da fada Aquilina, passou por uma cidade onde anunciava um torneio. Quem vencesse o torneio durante três dias seguidos receberia a mão da filha do rei. Leombruno, que tinha vontade de se exibir um pouco com o rubi encantado que trazia no dedo, apresentou-se no torneio do primeiro dia, venceu a todos e fugiu sem dizer seu nome. No segundo dia, apresentou-se de novo, saiu vencedor, mais uma vez e mais uma vez desapareceu. No terceiro dia, o rei mandara reforçar a guarda ao redor do local do torneio, e o vencedor foi detido e conduzido perante a tribuna real.
- Cavaleiro desconhecido - disse o reio -, apresentou-se no torneio e o venceu. Por que agora não quer se identificar?
- Perdão, Majestade, não ousava vir à sua presença.
- Venceu, cavaleiro, e agora deve casar com minha filha.
- Majestade, lamento, mas não posso!
- E por que não?
- Majestade, sua ilha é uma jovem belíssima, porém já tenho uma esposa que é mil vezes mais linda que sua filha.
Diante de tais palavras, um murmúrio percorreu a corte; a princesa ficou com o rosto vermelho como brasas, e os nobres se puseram a sussurrar entre eles sem cessar. O rei, grave, impossível, disse:
- Cavaleiro, para que possamos admitir sua glória, é preciso que ao menos nos mostre sua consorte.
- Sim, sim - fizeram coro os fidalgos -, também queremos ver tal beleza. L
Leombruno se dirigiu ao rubi:
- Rubi, meu rubi, faça comparecer aqui a fada Aquilina
Porém, o rubi tinha poderes sobre todas as coisas, menos sobre a fada Aquilina, de quem provinha sua virtude mágica. E a fada, cheia de desdém, pois Leombruno se gabara dela, respondeu à chamada do rubi mandando a última de suas empregadas.
Contudo, mesmo a última das empregadas da fada Aquilina era tão bela e ricamente vestida que o rei e toda a corte ficaram de boca aberta.
- Cavaleiro, certamente é bela a sua esposa! disseram.
- Mas esta não é minha mulher! - disse o rei.
E Leombruno repetiu ao rubi:
- Meu rubi, desejo que a fada Aquilina compareça diante de todos aqui.
Dessa vez a fada Aquilina mandou sua primeira criada.
- Ah, esta sim é uma beleza! - disseram todos -, seguramente é sua esposa!
- Não - dsse Leombruno. - É apenas a sua primeira criada.
- Acabemos com isso! - disse o rei. - Ordeno-lhe que faça aparecer a sua verdadeira esposa.
Leombruno acabara de se dirigir ao rubi outra vez, quando, numa espécia de esplendor do sol, surgiu a fada Aquilina. Os fidalgos da corte ficaram deslumbrados, rijos como estátuas, o rei inclinou a cabeça, e a princesa rompeu em soluçõs e desapareceu. Mas a fada Aqulina se aproximou de Leombruno e, fazendo menção de pegar na sua mão, arrancou-lhe o rubi, exclamando:
- Traidor! Você me perdeu e só me reencontrará se gastar sete pares de sapatos de ferro. - E sumiu.
O rei ergueu o indicador contra Leombruno:
- Compreendi: você venceu graças às virtudes do rubi, e não por seu próprio mérito. Servos, dêem-lhe uma sova!
E o cavaleiro foi expulso, espancado e deixado na rua, ferido, com as roupas rasgadas e sem montaria.
Assim que teve forças para se reerguer, dirigiu-se tristemente rumo à porta da cidade e, ouvindo um forte rumor de martelos, percebeu estar próximo à oficina de um ferreiro, onde entrou.
- Mestre - disse -, preciso de sete pares de sapatos de ferro.
- O que fez, um pacto com o Pai Eterno, para viver centenas de anos até gastar todos esses sapatos? Mas, por mim, posso lhe fazer até dez, ou quantos quiser.
- O que lhe importa se vou gastá-los? Basta que lhe pague, não? Faça os sapatos e silêncio.
Assim que recebeu os sapatos, pagou-os, calçou um par, pôs três no bolso da frente, três no de trás e partiu. A noite o surpreendeu caminhando em meio a um bosque. Ouviu vozes discutindo; eram três ladrões que brigavam para dividir um butim.
- Ei, você, bom homem! Venha ser nosso juiz. Dirigimo-nos a você para saber o que toca a cada um.
- O que precisam dividir?
- Uma bolsa que, todas as vezes que é aberta, deita fora cem reais. Um par de botas que, ao ser calçado, corre uma milha além vento. E uma capa que torna invísivel quem a usa.
- Antes, deixe-me experimentar, se tenho que julgar. A bolsa: sim, é como vocês dizem. As botas: bem cômodas, isso são. E a capa, esperem-me abotoar aqui. Vêem-me?
- Sim.
- E agora, vêem-me?
- Sim, ainda.
- E agora?
- Não, agora não o vemos.
- E não me verão mais - disse Leombruno e, tornado invísivel pela capa, correndo mais que o vento com as botas mágicas e carregando a bolsa dos cem reais, percorria vales e selvas.
To be continued....

Era uma vez.. (parte 1)




Era uma vez um pescador infeliz: havia três anos que não conseguia pescar nem uma só anchova. Para sobreviver, ele, mulher e quatro filhos, vendera tudo o que tinha e agora pedia esmolas. Mesmo assim, dia após dia, punha a barca na água e ia para o alto-mar jogar suas redes. Recolhia-as sem nem ao menos um caranguejo ou marisco, e explodia rogando pragas terríveis.
Certa vez, rogava pragas depois de ter puxado a rede, quando, no meio do mar, apresentou-se o Inimigo,
- Marinheiro, o que o enfurece tanto?
- O que lhe quer que eu diga? A minha grande falta de sorte. Deste mar não tiro nem um pedaço de corda para me enforcar.
- Ouça Marinheiro - disse o Inimigo -, se fizer um pacto comigo, terá pesca todos os dias e ficará rico.
- Que pacto? perguntou o pescador.
- Quero o seu filho - pediu o inimigo.
O pescador começou a tremer:
- Qual?
- Aquele que ainda não nasceu, mas nascerá em breve.
O Pescador pensou que fazia muitos anos que já não lhe nasciam filhos, nem lhe nasceriam mais. Por isso, disse:
- Bem, aceito esse pacto.
- Então - disse o inimigo -, quando seu filho tiver treze anos, você o entrega pra mim. E a partir de hoje começará a ter pesca abundante.
- E se esse meu filho não nascer?
- As redes virão igualmente cheias de peixe, fique tranquilo, e não me dará nada.
- Era o que queria saber. Então firmo o contrato.
Concluído o pacto e desaparecido o inimigo no mar, o pescador puxou as redes que surgiram cheia de dourados, atuns e polvos. E assim no dia seguinte e nos outros dias. O pescador ficava rico e já dizia: "Levei a melhor sobre o Inimigo!". Porém, eis que lhe nasce um filho, tão lindo que parecia uma flor, e que talvez se tornasse o mais bonito e forte de seus filhos. Pôs-lhe o nome de Leombruno.
Quando estava no meio do mar, voltou a se apresentar a ele o Inimigo:
- Ei, marinheiro.
- Em que posso lhe servir?
- Promessa é dívida, lembre-se, Leombruno é meu.
- Sim, senhor. Mas daqui a treze anos.
- Até a próxima, daqui a treze anos. - E desapareceu.
Leombruno crescia, e vê-lo tornar-se a cada dia mais bonito e forte era uma sofrimento para o pai, pois o dia se aproximava.
Já estavam para se completar os treze anos, e o pescador começava a desejar que o Inimigo se esquecesse do pacto, quando, remando no meio do mar, eis que o vê vindo ao seu encontro e lhe dizendo:
- Ei, marinheiro.
- Pobre de mim - disse o marinheiro. - Sim, já sei, chegou o momento. Diga-me o que devo fazer.
- Traga-o amanhã pra mim. Amanhã - disse o Inimigo.
- Amanhã - disse o pai chorando.
E no dia seguinte disse a Leombruno que lhe levasse um cesto com almoço num lugar deserto da praia, onde ele aportaria com a barca, para poder retornar a pesca sem ter de passar em casa. O moço foi, mas não viu ninguém; o pai se fora para alto-mar a fim de não se fazer ver e deixar Leombruno nas mãos do Inimigo. Vendo que seu pai não se encontrava lá, o moço se sentou na praia para esperá-lo e, para passar o tempo, com pedaços de madeira jogados pelo mar, fazia pequenas cruzes e as amarrava ao seu redor, em círculo, cantarolando. Estava justamente cantarolando no meio dos círculos de cruzes, com uma delas na mão, quando o Inimigo chegou pelo mar.
- O que está fazendo aí moço? - disse
- Espero meu pai.
- Você tem que vir comigo - disse o Inimigo, mas não ia adiante porque o moço se achava cercado por aquelas cruzes. - Desfaça as cruzes, imediatamente! -disse-lhe.
- Claro que não desfaço!
Todavia, o Inimigo começou a lançar fogo pelos olhos, pela boca, pelo nariz, e lhe provocou tanto medo que Leombruno se apressou a desfazer as cruzes., mas ainda restava aquela que tinha numa das mãos.
- Desfaça essa também, rápido!
- Não, não quero! - dizia o moço chorando diante do Inimigo, que continuava a deitar fogo.
Nisso, no meio do céu apareceu uma águia. Deu uma grande volta, batendo as asas sobre Leombruno, caiu sobre ele, agarrou-o pelas costas com as garras e o levantou no céus debaixo do nariz do Inimigo enfurecido.
A águia transportou. Leombruno até uma montanha bem alta e se transformou numa belíssima fada.
- Sou a fada Aquilina - disse - e você vai viver comigo e será meu marido.
Para Leombruno começou uma vida principesca, nutrido, e criado por fadas, que o instruíram em artes e no manejo de armas. Depois de ter vivido lá em cima muitos anos, foi tomado pela saudade de casa e pediu demissão à fada Aquilina para ir encontrar seu pai e sua mãe.
-Vá tranquilo e leve riquezas para seus velhos pais - disse a fada -, mas no final do ano deve voltar para mim. Pegue este rubi: terá tudo o que ele pedir. Porém, evite revelar que sou sua esposa.
Na aldeia de Leombrunom quando viram chegar um cavaleiro armado e vestido tão ricamente, as pessoas abriram alas. E o viram descer da sela à porta do velho pescador.
- O que pretende com aquela pobre gente? - perguntaram-lhe, mas Leombruno não lhe deu atenção.
A mãe veio abrir e Leombruno, sem se identificar, pediu hospedagem. Grande foi a confusão dos dois pobres velhos, tendo de hospedar um senhor com aparência tão nobre e rica.
- Desde que perdemos nosso adorado filho caçula - disseram-lhe -, não nos importa mais nada no mundo, e deixamos esta casa se arruinar.
Mas Leombruno demonstrava estar satisfeito com tudo, e à noite adormeceu numa cama de palha, como se estivesse em casa.
Estavam todos dormindo quando Leombruno disse ao rubi:
- Meu rubi, transforme esta pobre cabana num palácio com movéis de senhor e faça também com que nossas camas se tornem as mais macias e cômodas do mundo.
E o rubi transformou em realidade todos esses desejos.
De manhã, o pescador e a mulher despertaram num leito tão macio que afundavam nele.
- Onde estamos? Meu marido, onde estamos? - exclamou a velha, assustada.
- Eu é que sei minha mulher? - disse o pescador. - O fato é que eu me sinto muito bem!
E sua admiração cresceu ainda mais quando, ao abrir a janela, apareceu um aposento de príncipe e, no lugar dos velhos trapos deixados na cadeira, roupas bordadas de ouro e de prata.
- Mas onde é que viemos parar?
- Em sua casa - disse o cavaleiro entrando -, e também minha casa, pois sou seu filho Leombruno que julgavam perdido para sempre.
E assim começou para o velho pescador e a mulher uma vida rica e feliz junto ao filho reecontrado. Porém, certo dia ele disse que devia partir e, depois de ter lhes deixado caixas de jóias e pedras preciosas, despediu-se prometendo voltar a visitá-los uma vez por ano.

To be continued...