
É uma situação muito curiosa pensar na magia das vestimentas símbolo de referência original, cartão de boas vindas da personalidade de uma pessoa, onde cada peça e acessório possui uma estória própria ou já participou de várias estórias vividas de cada dono. Existe até a superstição daquele vestido que sempre trás sorte para aquela que usá-lo Por exemplo, uma senhora sempre se admirou ao notar que aquele chapéu de palha enlaçado nas abas com cetim vermelho trouxe momentos inesquecíveis. Toda vez que ela usava-o, o dia sempre era surpreendente e repleto de boas notícias. Nunca deixava de ser. Até o fato dela escolhê-lo numa tarde de verão sempre prenunciava “alegria está por vir”.
Estranho. Era o chapéu então que trazia alegria para a senhora, e porque não ela mesma? Para este mistério a sugestão pode estar no fato da chapeleira estar muito apaixonada na época em que confeccionou o chapéu, transformando-o numa espécie de EROS para quem comprasse. Como também da própria senhora adorar tanto o chapéu e atribuí-lo elevados significados, que alquimicamente o chapéu segue o seu destino representando exatamente o que senhora tanto deseja: a felicidade. Então, imaginem se por acaso os brechós estivessem cheio de estórias pra se contar. E com um pouquinho de imaginação, poderíamos refletir qual foram as vivências de cada ex-dono daquelas vestimentas penduradas só pela forma-pensamento que cada peça emana.
"...Aquela jaqueta verde embolorada, por ex, poderia ter tido como dona a universitária que veio pra capital estudar medicina sem nenhum capricho de comprar roupas novas, tendo como principal passatempo visitar os pais no fim de semana e reclamar que nunca tem dinheiro suficiente pra comprar seu sonho de valsa no intervalo das aulas. Sem falar na pequena sapatilha prateada, que poderia ter sido usada na festa de 15 anos daquela jovem mimada aos excessos pelos pais bem-sucedidos, cuja principal vontade era a de fazer 18 o quanto antes..."
Seria uma verdadeira coleta de personagens numa pequena loja de usados, o portal para um verdadeiro coro de sapatos dançantes, todos em confraria batucando seus saltos no chão e cantando em voz alta como um filme musical qual é o significado de cada um, de onde vieram, como era a personalidade de seu dono, se foram bem tratados, se ficavam mais tempo no armário do que os outros irmãos, se tinham alguma denúncia a fazer ou se eram o próprio dono encarnado no sapato depois de sua morte? Disso só um clarividente pode saber, mas eu também com a força da minha imaginação posso viajar até seus mundos e descobrir seus mistérios, mesmo se alguns detalhes ficarem um pouco mais fictícios e saborosos.
Então, quando alguns de vocês forem em algum brechó comprarem alguma roupa em especial, tentem navegar ao mundo anterior daquela “blusa encarnada”, tentem buscar os momentos felizes ou tristes, enfim, perguntem para a sua intuição se “ela” por acaso não trás uma sorte especial para suas aspirações amorosas. Nunca se esqueçam, um objeto como uma roupa sempre pode ser a ideal confidente de nosso estado de humor e pudor e, quando conferimos poder a algo, estamos conferindo poder a nós também.
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