sábado, 27 de março de 2010

O mês 3.

Há exatamente um ano atrás, participei do Festival de Teatro de Curitiba com a peça “Pela passagem de uma grande dor”. Quatro dias de apresentação e o resultado teve seus méritos, pois foi um sucesso de público, de união, de experiência coletiva e de novos começos. Como atriz, com certeza eu não estava inteira, não tive nenhum canal próprio de estudo, e levei as personagens com um total desleixo e falta de confiança, o que muitos espectadores puderam notar na execução encenada. Como resultado da negligência, o diretor me deu umas cutucadas nas minhas maneiras interpretativas, me deixando bem frustrada.

Este fato aconteceu na primeira tarde de peça, na estréia, e como estávamos na boca do festival, resolvemos ficar no centro o resto do dia. Eu e mais três amigos, que também estavam participando do festival, convidaram-me a bater um papo na Casa Lilás balanceando os prós e contras do primeiro dia de peça. De papo eu não estava muito afim e nem tinha muito a que comentar na mesa, restando-me como refúgio tirar uma caneta e um papel que eu tinha na bolsa e disparar em desenhos desconexos e sem nenhum fim em si. Os desenhos foram aleatoriamente tomando vida, e eu me animando com prazer em trazer mais vida a eles. E foi assim que tudo começou e onde a paixão nasceu.

As horas passaram, a eles só tinha que ir embora, como eu também tomando mesmo rumo, mas ainda latente aquela vontade indomável de continuar desenhando. Tinta e papel eu ainda tinha era muita. No trajeto de volta pra casa, refleti num ímpeto desejoso de desviar o curso pela alternativa muito mais audaciosa: a de ir me sentar nas mesas do memorial e continuar desenhando. Felizmente, foi assim que os desenhos nasceram dentro de mim: quando eu estava me sentindo a mais impotente e triste de todas.

Fui apenas tentando como contraparte ouvir as minhas imagens internas com a caneta e o papel, decifrando assim os códigos emocionais. Desenhar é alquímico! Quando se cria, tudo se transforma. Temos que nos permitir sofrer às vezes pra trazer novidades a nossa vida, ou seja, permitir-se sempre ser apenas você: imperfeita e inovadora.

Hoje é dia 27 de março, a data universal do teatro. No mês das mulheres, despontando ensolaradamente uma nova estação. Na noite do dia 27 tem que apagar as luzes por uma hora em homenagem a Mãe-Terra, não se esquecendo que é o mês de receber os sinais que só dizem respeito a cada um de vocês.

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